Mulheres e religião

Budismo: o Feminino e o Masculino como inteligências.

Bruna Crespo nos conta sobre sua vivência no budismo e a participação feminina na religião

Bruna Crespo, formada em Letras pela UFJF, encontrou o Budismo após terminar a faculdade por conta da meditação. Criada na Igreja Batista, ela deixa a religião dos pais antes de entrar na faculdade, mas diz que até hoje tem muito respeito pela tradição em que foi introduzida na infância. Atualmente participa na produção da Revista Bodisatva, que discute temas relacionados ao budismo.

RENATA GUARINO: Como você encontrou o budismo? De onde surgiu a vontade de procurá-lo?

BRUNA CRESPO: Eu nasci em uma tradição ligada ao evangelho, meus pais são Batistas e já tinha passado por essa tradição na adolescência. Saí, fui pra faculdade, passei um tempo meio descrente, não querendo me aproximar de nenhuma tradição. Ao sair da faculdade eu fiquei em crise com isso, com essa questão. Como é que fica a espiritualidade? Estava sentindo falta dessa vivência e aí comecei a ler muita coisa do Oriente até chegar ao Budismo. Encontrei o Budismo mais pela prática da meditação, até por um embasamento científico, sabe? Aquela coisa que a gente traz da universidade, eu tinha acabado de me formar em 2015 e me interessei muito pelos benefícios que a meditação traz. Fui visitar o GEBB por conta da meditação (Grupo de Estudos Budista Bodisatva, na época era um grupo de estudo, não era um centro), pra ter mais equilíbrio e os benefícios que ela oferece.

Tinha uma certa resistência ao Budismo, eu não queria entrar em mais uma religião. Queria ir pela prática da meditação, por um viés mais científico. Porém, participando dos estudos e ouvindo aqui e ali, aquilo fazia muito sentido. Encontrei no budismo uma visão mais ampla que inclui outras tradições e a possibilidade de não seguir nenhuma tradição, de não seguir nenhuma religião, e tá tudo bem também. O budismo se apresenta, e isso me encantou muito, como um veículo pra gente ampliar nossa visão e compreensão da realidade, do nosso mundo interno. É uma relação de autoconhecimento. Foi isso que me trouxe para o budismo, primeiramente a meditação e depois fui ficando pela filosofia também.

Encontrei o Budismo mais pela prática da meditação, até por um embasamento científico, sabe? Aquela coisa que a gente traz da universidade, eu tinha acabado de me formar em 2015 e me interessei muito pelos benefícios que a meditação traz.

RG: Você falou que os seus pais são Batistas. Como eles reagiram ao budismo?

BC: Olha, eu acho teve uma resistência mais da minha parte, um receio de que eles não iriam acolher muito bem porque culturalmente é diferente. É muito recente a cultura oriental aqui no Ocidente. Todas essas imagens, é tudo muito diferente. Na verdade, não me apresentei como budista. Fui praticando, depois de um tempo eu estava indo pra retiro, fui para retiro fechado de 10 dias, fui pra templos… E meus pais foram observando. Depois, com naturalidade, começaram a falar também “A Bruna agora é budista”. Tenho um respeito muito grande. Atualmente moro com eles, então dentro de casa eu não coloco um altar ou imagens. Na casa deles eu respeito a visão, o referencial, a tradição dos meus pais e tenho muita gratidão por essa tradição que aprendi. Eles não participam muito de perto da minha vivência, da minha experiência, como eu participo da deles. Visito e vou na Igreja de vez em quando, em datas específicas, mas não é problemático.

(…)meus pais foram observando. Depois, com naturalidade, começaram a falar também “A Bruna agora é budista”

RG: Pra você, o que essa vivência do budismo e como você define a sua participação aqui?

BC: Minha vivência tem muito dessa motivação do porquê eu procurei a busca do autoconhecimento. O Budismo propõe essa investigação, essa busca interna de olhar pra si, entender suas próprias emoções e ao mesmo tempo guiar essa nossa visão para a realidade, ou seja, melhora também as nossas relações, não só com as pessoas mas também com a biosfera, com o meio ambiente, com as causas sociais. Além disso, traz esse auto-equilíbrio que a meditação oferece, seus benefícios e bem-estar. Também tem os afetos que a gente vai criando. Na minha experiência isso é muito marcante.

O budismo pode ser uma religião, uma tradição que a gente pode praticar vivendo, tendo a nossa vida cotidiana. O nosso professor traz muito essa abordagem de não criar uma expectativa de ir pros Himalaias, de se afastar do mundo. Para realizar o autoconhecimento no budismo não é preciso se afastar das nossas relações, das nossas atividades comuns. A gente pode incorporar no nosso dia a dia um pouquinho de silêncio, um pouquinho de estudo, ir melhorando e pacificando as relações, e a partir do nosso exemplo, das nossas ações, refletir uma cultura de paz. Não é uma coisa tão diferente. Às vezes a gente tem o referencial oriental do budismo, e essa abordagem ocidental também funciona. Meu professor fala que a gente pode ser yogues do cotidiano, o budismo tem esse convite para homens e mulheres.

A minha atuação aqui é como facilitadora, sou praticante e facilitadora. Tem toda uma sangha do CEBB (Centro de Estudos Budista Bodisatva, está espalhado por várias cidades do Brasil), tem as aldeias mais rurais, tem os centros mais urbanos. Essa rede toda é muito especial pra mim, essa conexão, os afetos, as relações. Isso transformou completamente a minha forma de me relacionar, até mesmo com o trabalho. A atuação também, no CEBB eu tô envolvida em projetos como a Revista Bodisatva.

RG: Algumas religiões ocidentais tem o papel masculino e feminino muito marcado dentro da religião. O Budismo tem isso? E como o budismo enxerga a mulher?

BC: A gente pode olhar e responder essa pergunta em vários níveis. O Budismo, como as outras tradições, reflete questões sociais contemporâneas. Esse lugar da mulher às vezes fica mais restrito. Por exemplo, a gente pode pegar o tempo do Buda. Há muito tempo atrás essa marca do lugar da mulher já existia, inclusive era mais forte do que é pra gente hoje. O próprio Buda era um príncipe na Índia antes de sair do palácio, ter sua jornada espiritual. Ele já vivia em um lugar privilegiado socialmente. Na época, as castas sociais eram muito demarcadas, e ali, na bolha de realidade que ele vivia, a mulher tinha um papel demarcado de servir, mesmo nessa condição de riqueza e da nobreza. Tinha tanto as mulheres do rei, que eram até mais de uma, quanto as mulheres artesãs, as musicistas, as que participavam do harém do Sidarta Gautama antes de ele virar o Buda.

Quando ele volta, depois de ele ter sido iluminado, de ter desperto, as pessoas pediram por seus ensinamentos. Os relatos são de que Mahaprajapati, a tia do Buda e uma das esposas do pai dele (Sudohodana), se interessa pelos ensinamentos. Ela pede pra que Buda dê os ensinamentos e ele oferece tornando-a uma praticante leiga, ainda não monástica. Esse é o primeiro registro de uma mulher que recebeu os ensinamentos. Buda não fez distinção, ele ofereceu ensinamentos para uma mulher. Essa tia do Buda, depois que o esposo dela morreu, o filho e o sobrinho resolveram seguir junto com o Buda no caminho da mendicância, ou seja, a abandonaram.

Outras mulheres da comunidade também estavam sofrendo pela falta da presença do homem, houve uma guerra e muitos homens tinham morrido, elas estavam viúvas. Todas, independente da casta, estavam vivendo uma crise de identidade e de insegurança social. Se me ensinaram desde que nasci que o sentido da minha vida como mulher é servir ao homem e a sociedade, seja cuidando, fazendo atividades cotidianas, ou seja, proporcionando prazer, diversão das mais diversas formas e agora os homens não estão aqui, qual é o sentido da minha vida? Qual é a minha identidade? Era momento de crise e as mulheres estavam sofrendo. Por isso, o gesto da tia de Buda motivou as outras a também quererem praticar. Elas começaram com o Buda oferecendo os ensinamentos.

Se me ensinaram desde que nasci que o sentido da minha vida como mulher é servir ao homem e a sociedade, seja cuidando, fazendo atividades cotidianas, ou seja, proporcionando prazer, diversão das mais diversas formas e agora os homens não estão aqui, qual é o sentido da minha vida?

Depois disso Mahaprajapati pediu para o Buda fundar uma sangha monástica, até então só homens poderiam seguir esse caminho. A maioria da mulheres nem eram letradas, não tinham direito à filosofia budista, a esse estudo filosófico que os homens tinham.

Em um registro clássico (Vinaya) se relatou que o Buda negou três vezes a abertura dessa sangha monástica para mulheres, até que Ananda, seu discípulo, fez uma súplica para que ele abrisse e então Buda o faz, mas com condições específicas. Ele acrescenta oito preceitos para as mulheres, além dos que todos os monges já seguiam. O primeiro deles, por exemplo, diz que elas, mesmo com cem anos de ordenação, deveriam reverenciar um monge com um dia de ordenação. Era nesse nível! Mais tarde, vários eruditos estudiosos contrapuseram essa afirmação dizendo que isso foi uma impressão que os homens relataram na tradição oral. Os homens que fizeram esse registro escrito da vida e da época de Buda imprimiram a sua marca, então não temos provas do que realmente aconteceu. Mas os estudos desses pesquisadores contam que o Buda não reagiu assim, tanto que ele já tinha oferecido ensinamento para as mulheres.

Nessa trajetória toda, ainda foi se prolongando essa hierarquia do papel da mulher e o papel do homem. Por exemplo, tem uma mestra, uma professora contemporânea que se chama Jetsunma Tenzin Palmo, muito conhecida no Brasil. Ela aborda muito essa temática, diz que em sua época, quando estava no monastério, percebia isso.

Os homens que fizeram esse registro escrito da vida e da época de Buda imprimiram a sua marca, então não temos provas do que realmente aconteceu.

Tenzin Palmo encontrava dificuldades para ter acesso e receber ensinamentos que eram considerados mais elevados, que levavam a liberação completa da mente. Mas ela foi firme, insistia. Chegou a se posicionar com mais veemência diante de atitudes e comportamentos de líderes homens dentro desses monastérios. Depois que Tenzin Palmo foi ordenada – com seus méritos, com a mendicância, com os ensinamentos -, percebendo esse contexto todo, decidiu construir um monastério só para mulheres. Historicamente isso é recente. É a coisa mais linda o monastério dela, as monjas estudam e são sustentadas por contribuições, pela generosidade das pessoas que mantém aquilo vivo. E ela viajando e ensinando, oferecendo os ensinamentos, é isso que sustenta o monastério. A sua trajetória é um exemplo disso, dentro do budismo uma ocidental que teve contato com essa cultura tibetana oriental. A história dela é inspiradora.

Como Tenzin Palmo há várias outras, essas professoras contemporâneas, já nessa posição de oferecer para as mulheres a mesma oportunidade que os homens têm de acessar o Darma, como o Buda fez lá na Índia. Outros professores do nosso templo, como o meu professor Lama Padma Samtem, em seus lugares como homens, vem apoiando um espaço pra essa reflexão. Meu professor fala que a história das mulheres não foi contada, a gente conhece a história dos homens, tanto socialmente como dentro da nossa tradição.

A Ani Chöying Drahma já é do Nepal. Ela lidou com uma realidade mais marcante nesse sentido de qual é o lugar da mulher e do homem. Sofreu muito com a agressividade do pai. Chöying Drahma apanhava, via a mãe apanhar, via os irmãos e os homens recebendo um tratamento diferente do pai. O caminho espiritual pra mulher era um refúgio da dor, da violência física, além da verbal e social. Ela foi para um monastério e lá aprendeu a lidar com todos os conflitos internos, com a raiva que sentia do pai, com a raiva que sentia enquanto mulher, enquanto ser social. Chöying Drahma diz que o primeiro homem que amou de verdade foi o seu professor. Ele a ajudou a lidar com tudo isso e também olhar para seus problemas com compaixão, não com passividade. Quando ela precisou se posicionar diante de algumas ações negativas de seu pai, agressões, Chöying Drahma o fez, mas com sabedoria. O budismo traz muitas para reflexões sociais no geral, olhar para o outro que a gente chama de agressor, ou algo do tipo, com essa compaixão de entender que ele também é vítima dessa ignorância.

(…)os princípios feminino e masculino estão presentes em todos os seres. O feminino vai representar a sabedoria, essa visão mais ampla da realidade, uma abertura, uma criatividade que está presente em todos os seres. O masculino vai representar a compaixão, mais ligado a ação.

O budismo parte do princípio de que a única culpada por todo o nosso sofrimento é a ignorância. O pai de Chöying Drahma estar naquele lugar, olhar para as mulheres daquela forma e tratar as mulheres daquela forma é um reflexo da estreiteza da mente dele. Durante toda a sua vida, ela voltou o olhar para essa violência contra a mulher porque ela vivenciou isso na própria pele. Fundou a Aya Tara School, um projeto social que apoia meninas vítimas de violência. É bem interessante a sua trajetória porque ela transformou isso em uma ação social efetiva.

Se a gente quiser olhar para um aspecto mais sutil, o papel do feminino e do masculino nas deidades, dentro do budismo, já é diferente. E aí já não estamos mais falando de gênero, os princípios feminino e masculino estão presentes em todos os seres. O feminino vai representar a sabedoria, essa visão mais ampla da realidade, uma abertura, uma criatividade que está presente em todos os seres. O masculino vai representar a compaixão, mais ligado a ação. Se a gente for olhar em um aspecto mais profundo, que é o que o Buda vai nos convidar a olhar, a natureza da nossa mente e da mente de todos os seres não tem diferença. Ela é essencialmente livre, espaçosa, criativa. Vai apontar para um espaço de liberdade que está antes desse aspecto feminino e masculino como inteligência e antes do gênero, antes mesmo dessa coisa corpórea, material.

Tem uma professora budista, ela é mestra também, chama Karma Lekshe, nas suas pesquisas a gente pode encontrar essa base científica. Ela vai dizer que a natureza da mente é livre, essencialmente livre, e a partir dessa dessa liberdade a gente vai construir e desconstruir, tanto no sutil quanto no grosseiro, as relações sociais, o contexto social. Tanto é que tem momentos históricos de sociedades que passaram também por períodos mais matriarcais, e agora a gente vive em um período mais patriarcal. Tudo isso surge dentro dessa liberdade toda que a gente tem, desse espaço da mente. Esse é o aspecto mais profundo que o budismo traz, que convida a gente a olhar.

[a natureza de nossa mente] é essencialmente livre, espaçosa, criativa. Vai apontar para um espaço de liberdade que está antes desse aspecto feminino e masculino como inteligência e antes do gênero, antes mesmo dessa coisa corpórea, material.

RG: Tem alguma coisa que é passada pelo budismo que você sente dificuldade em praticar?

BC: O Budismo é muito amplo. O próprio Buda ofereceu uma infinidade de ensinamentos. Nele há muitas portas de entrada, e aí acaba que os mestres, os professores, aconselham que nós comecemos a praticar por onde temos conexão. Como o meu professor mesmo fala: pratique o que está funcionando pra você. Se você veio com interesse na meditação, tem essa conexão e facilidade, pratique a meditação. Se você já tem uma abertura maior para ritual, para as práticas mais litúrgicas, então faça bujas, recite mantras, recite preces. Geralmente a gente vai praticando aquilo que temos mais facilidade, mais conexão.

Eu tenho uma barreira que muitos de nós, praticantes urbanos com uma vida social comum, temos: a dificuldade de encontrar espaço para nos aprofundarmos na prática, ou seja, de para lugares mais tranquilos, pras aldeias, no caso do CEBB, e fazer um retiro fechado de um mês, dois meses, três meses, ou seis meses, quem sabe?

Eu tenho essa vontade, essa aspiração de fazer períodos mais longos. Fiz de até um mês, 10 dias, 15 dias, mas é algo que eu sempre encontro dificuldade. Mesmo esses que eu fiz, mais curtos, a gente sempre fica preocupado em como vamos fazer com a vida cotidiana, com o trabalho, família, relações. Não só pelas atividades que exercemos na sociedade, mas também por questões internas. É um receio de estar consigo mesmo sem nada que você possa se agarrar externamente, sem os nossos objetos de apego do cotidiano. Essa é uma barreira tanto física, de questões práticas, quanto sutil, de barreiras internas. Mas eu tenho essa vontade de fazer retiros um pouco mais longos.

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