Catolicismo: a mulher é uma pessoa forte (parte 2/3)

Fabiana e sua filha mais velha Beatriz. Fabiana tem 40 anos e é engenheira aeronáutica. É católica e também trabalha como catequista na comunidade que frequenta. Beatriz tem 20 anos e atualmente faz vestibular para medicina. Também é católica e atua como cerimoniária. As duas pertencem à Congregação Salesiana da Igreja Católica, em São José dos Campos.

 

Renata: Apesar da religião católica ser uma religião extremamente difundida no Brasil, hoje em dia não é todo mundo que tem contato com ela, não é mais tão tradicional a criação católica no Brasil. Então, queria que vocês explicassem um pouco como funciona a religião católica? No que acredita a religião católica?

Fabiana (Fabi): Acho muito aberta essa pergunta sua. Ela acredita em Deus. Se a gente for responder o que você acabou de perguntar, ela acredita em Deus e na Trindade. Trindade é una. A Igreja católica é Trindade, é Deus: Pai, Filho e Espírito Santo em um só. É nisso que a Igreja Católica acredita. Acredita no batismo, na crisma, acredita na salvação por si só, cada um tem a sua salvação, e é isso.

 

Renata: Vocês já contaram um pouquinho sobre a vivência de vocês, a Fabi contou mais, mas eu queria que vocês falassem mais sobre isso. Qual é a função de vocês, qual a frequência que vocês iam à igreja? Como é a vivência de vocês com a Igreja Católica? 

Beatriz (Bia): A gente ia na missa todo domingo, mas no meio de semana eu não conseguia ir por conta do cursinho. Eu sou cerimoniária, fui coroinha e ainda sou, mas não sou tão coroinha depois que eu assumi o cortejo cerimoniário. Eu já fui da liturgia, saí porque demandava muito tempo. Mas sempre que precisam de leitura eu entro também, não tenho problema com isso. Com 13 anos eu entrei como auxiliar da catequese, então eu fui auxiliar de quatro turmas. Em uma das últimas turmas eles ficaram sem catequista e eu puxei ela [a Fabi], falei que estavam precisando de catequista.

Fabi: Esse já é o meu sexto ano de catequese.

Bia: Daí ela entrou porque ficou sem catequista, a catequista vazou. Agora, por conta do cursinho, eu saí também.

Fabi: Eu já te disse, cresci na católica. Depois que eu me separei e vim pra São José foi quando eu me realizei na Igreja Católica. Sou da liturgia todo domingo na missa das dez e sou catequista. A gente tá dando aula online, 22 crianças de 8 anos. Eu amo o que eu faço, não largo eles por nada. São 3 anos de catequese e geralmente a gente acompanha até o final. No ano passado eu fiz a primeira comunhão de 24. Então eu amo o que eu faço, eu amo as crianças. Ás vezes a Laura, minha filha mais nova, vai na crisma. Eu a levo e tem dia que fico na missa enquanto ela tá na crisma e tem dia que não. Ela também está fazendo curso de cerimoniriária. A Laura já tem seis anos de coroinha.

“O catolicismo é uma das mais expressivas vertentes do cristianismo e, ainda hoje, congrega a maior comunidade de cristãos existente no planeta.” Brasil Escola

 

Renata: Como é que vocês sentem essa vivência da Igreja Católica sendo mulheres?

Fabi: Então, eu não tenho problema não, de verdade. As meninas entraram em uma época quando podia cerimoniária feminina.

Bia: Mais ou menos.

Fabi: A Bia já entrou em uma época que não podia cerimoniária menina, então foi a gente que revolucionou.

Bia: Porque eu fui da segunda turma de cerimoniárias meninas da igreja. E até hoje em dia a gente tem várias funções que não podemos fazer. Tipo, se tem um menino pra levar a cruz e uma menina, eles escolhem o menino. Por que? Eu não sei.

Fabi: É que a nossa igreja quebra muito tabu, ela quebra muito esse paradigma.

Bia: Quebra mas escolhem os meninos, entendeu? Desculpa, é que eu fico muito revoltada, escolhem os meninos e não tem diferença nenhuma.

Fabi:  Mas isso é por causa da cultura, porque o padre foi doutrinado assim e acaba que a gente tem que se doutrinar. Depende muito do pároco da Igreja para esses paradigmas estarem acontecendo.

Bia: Uma turma antes de mim foi formada com as primeiras meninas e até hoje não pegaram novas meninas. Na última turma só tinha uma menina e milhares de meninos, entendeu? 

Fabi: Acontece esse preconceito. Eu não sei se a gente pode chamar de preconceito.

Bia: É preconceito sim! Não adianta tentar explicar!

Fabi: Aqui você tá com várias gerações. (Fabiana dá risada)

Bia: Como você pode perceber, a gente tem várias opiniões diferentes, eu e minha mãe.

 

A mulher divorciada

Fabi: A igreja católica nasceu de uma doutrina, então para mudar precisa se ter um papa como se tem hoje, que faça com que esses paradigmas se quebrem. Até então, antes do Papa Francisco, a mulher que tem filho e é solteira não podia se batizar. A mulher divorciada não podia se batizar, e muito menos comungar. Eu [sou] divorciada, o certo era não comungar, mas eu vou ser sincera, eu preciso disso pra mim e me comungo e não tô nem aí para o que os outros falam. Isso é uma conversa entre eu e Deus, Deus e eu. Mas, pela doutrina e pela regra, eu não posso fazer isso porque sou divorciada. Mas tem um lado bom pra mim, eu não casei na igreja católica nem na evangélica. Eu só casei no civil. 

Bia: E tem outra coisa, quando ela foi me batizar não podia porque ela não era casada e ia ser uma vergonha pra Igreja Católica. 

Fabi: E a Laura batizei normalmente, mesmo eu sendo divorciada, eu batizei e os padrinhos tinham que ser casados.

Fabi: Essa doutrinas tem que serem quebradas por Papas, ou conselheiros, ou órgãos maiores da Igreja católica

Bia: Ou por nós mesmos.

Fabi: O próprio Papa Francisco falou que as mães solteiras são muito mais mães que as mães que têm o pai junto. Ele já está quebrando um paradigma dando abertura para as mães solteiras. Mas na minha época, quando fui batizar ela [Bia], não tive isso. Esse padre [que batizou a Bia] hoje em dia é bispo, pra você ter uma ideia, e ele falou assim: “Você vai pro inferno”. Eu respondi que se eu fosse pro inferno ele iria junto comigo.

“A Igreja católica tem essas doutrinas, esses paradigmas que com o pensamento de hoje em dia tem que ser quebrado. Até o jeito de você ler a bíblia e interpretar. Ela precisa ser interpretada pros dias de hoje. Se você for em Cânticos, Cânticos dá uma exposição à mulher muito maior. Diz assim: o colar caindo sobre os seus seios ressaltam a beleza de ser mulher. Cânticos diz isso e eles escondiam. Até que antigamente, hoje em dia não tem mais isso, a mulher não pegava na Bíblia. Ela não tinha esse direito de pegar na Bíblia.” 

Bia: É por isso que só existe diácono homem, é o homem que tem direito a palavra, a mulher não tem esse direito.

Fabi: Exatamente. A mulher não tem o direito de falar do evangelho. Ela tem direito de falar da primeira ou da segunda leitura, ou ao mesmo tempo o salmo, mas nunca o evangelho.

Bia: E é por isso que a maioria das mulheres dão a catequese, porque a mulher tem o papel de ensinar.

Fabi: A nossa catequese tem 50 mulheres para dois homens.

Bia: Porque a mulher tem a função de ensinar e o homem não, né?