Catolicismo: a mulher é uma pessoa forte (parte 3/3)

Fabiana e sua filha mais velha Beatriz. Fabiana tem 40 anos e é engenheira aeronáutica. É católica e também trabalha como catequista na comunidade que frequenta. Beatriz tem 20 anos e atualmente faz vestibular para medicina. Também é católica e atua como cerimoniária. As duas pertencem à Congregação Salesiana da Igreja Católica, em São José dos Campos.

Veja a parte 1 aqui. Veja a parte 2 aqui.

 

Renata: Vocês estão falando muito da participação da mulher na Igreja. E como doutrina da a igreja católica enxerga a mulher? A gente tem o exemplo da Nossa Senhora como a mãe. Como a Igreja Católica doutrina essas mulheres e como é passado a imagem da mulher pra Igreja Católica?

Fabiana (Fabi): Aí você entra em um paradigma que está sendo quebrado. A gente tem um bispo aqui, o Doutierre. Ele é uma graça. E é engraçado que quando a gente estava falando de Maria, podemos dizer que Maria era submissa. Mas se você olhar a história da Maria, o tanto que ela batalhou pela família, o tanto que ela foi atrás, e foi isso o que o bispo falou. Pra você ver como a gente tá quebrando o paradigma. A mulher é uma pessoa forte, ela tem que respeitar o homem, como eles dizem… Então, entrando na doutrina mais profunda, tem o versículo que diz que a mulher tem que respeitar o homem. Mas, tem outro versículo que vem quebrar isso, que diz que a mulher é perfeita como é. Então foi isso que o bispo falou, que a mulher hoje em dia é arrimo de muitas famílias. O respeito de hoje em dia não é mais o que todo mundo fala de submissão e sim o respeito de você estar contigo, estar com outra pessoa. Eu como sou divorciada, não posso falar isso.

Eles falam muito disso, não vou dizer que não, desse respeito que a mulher tem que ter com o homem. Mas, eles falam também que hoje em dia tem que ser recíproco, tem que ter o bate e volta. Essa é uma das coisas que eu gosto da Igreja que eu estou. Porque eles sempre colocam e exaltam a mulher, uma mulher de mulherão, de coluna, de arrimo de família, que corre atrás, que faz a coisa certa.

Beatriz (Bia): Até que boa parte das pessoas que cuidam das finanças da igreja são mulheres. Eles são bons com isso, sabe? Mas, não muda o fato de eu achar que eles querem uma mulher linda, virgem e imaculada tipo Maria em toda a Igreja Católica.

Fabi: É isso que eu ia falar, em toda Igreja Católica. Mas, eu acho que é impossível hoje em dia as igrejas quererem a virgindade plena.

Bia: Gente, século XXI! Por favor, vamos evoluir.

Fabi: Então, não tem como.

Segundo estatísticas recentes, cerca de um bilhão de pessoas professam ser adeptas ao catolicismo. Brasil e México são os principais redutos de convertidos. Brasil Escola

Renata: Saindo um pouco do espectro de mulher, apesar da gente não conseguir sair muito porque somos mulheres. Existe alguma coisa da igreja católica que vocês sentem dificuldade em praticar?

Fabi: Ler o terço, ou rezar o terço, até hoje eu não sei. Nossa, eu não tenho paciência pra isso.

Bia: Confessar!

Fabi: Também! Acho isso um absurdo!

Bia: Eu não tenho que confessar com o padre, o padre não é Deus!

Fabi: Exatamente! Confessar é um ato entre eu e Deus, Deus e eu! Se ele sabe tudo o que eu sou e tudo o que eu tenho, porque eu tenho que ainda me confessar com o padre?

Bia: Eu tenho que pedir perdão pra Deus! Deus tudo bem, mas pro padre não.

Fabi: E mais, a primeira coisa que acontece na missa é a parte do perdão, você já se confessa ali, você e Deus.

Bia: Na época que eu fiz crisma, eu tinha várias tretas, várias. Até que eu fui mandada pro Irmão porque eu tinha treta com a professora. Então, comecei a fazer crisma com o Irmão. Uma das tretas que eu tive com ele, eu falo treta, mas não foi treta real, tá? Foi tipo uma conversa com ele. Foi sobre a confissão. Porque ele falava que eu tinha que me confessar todo mês, então eu perguntei se eu já não conversava com Deus e se Deus já não me escutava. Ele disse que sim, mas que o padre vai interceder o que eu estou falando. Só que eu também consigo chegar em Deus. Isso me deixa revoltada: você precisa de um padre que é tão humano quanto eu. Com certeza ele peca também, ele é só um padre, ele vai beber, dar “PT” igual a toda pessoa normal, então por que eu tenho que confessar com ele?

Fabi: A gente convive muito com eles. Eu vou na festa de aniversário do padre, a gente encontra com o padre na casa de amigos, é muito envolvimento, entendeu? Isso é outra coisa que eu ensinei muito pra ela, porque com todo esse envolvimento a gente tem que dividir: o padre “X” e o “X”. O padre “X” é aquela pessoa que sobe no presbitério, faz sermão… Ele sim é alinhado por Deus e pelo Espírito Santo. Quando ele tá ali, merece todo o respeito, toda a atenção, porque ele está sendo dominado pelo Espírito Santo. Agora, a partir do momento que ele desce dali, é um homem como qualquer outro homem.

“Outra coisa que eu também não aceito da Igreja Católica: o padre não casa. Pra mim, o padre pode fazer casamento se ele não é casado! A minha irmã casou com um diácono porque eu falei isso pra ela. Como que [o padre] vai falar aquelas palavras lindas, maravilhosas no casamento “Deus abençoe o casamento, vocês não podem brigar…”, se eles nem sabem o que é um casamento? Como ele vai orientar um casal se ele nem sabe o que é casamento? O diácono é casado, ele tem família, ele tem tudo… Ele pode dizer o que é um casamento.”

“A gente é bem polêmica.”

Bia: A gente está na nossa religião super feliz, mas sempre criticamos.

Fabi: Mas a gente ama estar lá. A gente gosta da religião católica, não negamos que vamos continuar nela, mas a gente tem as nossas críticas.