Fé Bahá’í: a alma não tem sexo

Dany Ellen Shayani, 32 anos, é Bahá’í há aproximadamente 3 anos e conheceu a Fé Bahá’í depois de um longo tempo. Foi criada com uma liberdade religiosa muito grande, seu pai era budista e sua mãe umbandista e ela ia no catecismo “pra dar opinião”.

RENATA GUARINO: Como você conheceu a Fé Bahá’í?

DANY ELLEN: Depois de um tempo, na minha adolescência, frequentei igrejas evangélicas e gostei muito, fiquei ali até os meus 18 anos quando entrei na faculdade. Depois disso, comecei a me fazer algumas perguntas e resolvi sair, decidi ser uma pessoa espiritualizada independente de religião. Mas eu buscava alguma coisa. Frequentei vários lugares e ficava com uma pressa daquela reunião acabar… Quando conheci a Fé Bahá’í, não senti mais essa pressa. Me chamaram para uma reunião na e foi algo espontâneo, não me senti pressionada a nada, senti uma atmosfera diferente. Eu buscava uma educação espiritual diferente. Às vezes a gente busca enobrecer muito a nossa vida, mas não para pra ver do que o nosso espírito precisa, não para pra cuidar da nossa vida espiritual. Sempre acreditei que a espiritualidade tá junto com a vida emocional, com a vida pessoal, com a vida profissional. 

Frequentei vários lugares e ficava com uma pressa daquela reunião acabar… Quando conheci a Fé Bahá’í, não senti mais essa pressa.

RG: A Fé Bahá’í não é muito conhecida no Brasil. Eu queria que você explicasse um pouco como ela chegou ao Brasil, sua origem e o que é a Fé Bahá’í.

DE: A verdade é que a Fé Bahá’í é a segunda religião mais espalhada no mundo, mas ela ainda está em fase de crescimento, é bem nova, tem só 175 anos. Surgiu na Antiga Pérsia, hoje Irã. Na época, existiam os babs, pessoas que seguiam o Báb (Siyyid Ali Muhammad). O Báb é considerado na Fé Bahá’í como se fosse João Batista, antecede a Jesus Cristo, ele antecede a um prometido. E esse prometido apareceu na Pérsia (Siyyid Ali Muhammad, também conhecido como Bahá’u’lláh) com todas as qualidades e toda a confirmação de que ele era um mensageiro e veio trazer educação espiritual para a humanidade. 

Nós Bahá’ís acreditamos em revelação progressiva: não importa a fonte, a luz é a mesma. Então, em determinado momento, o manifestante de Deus era Maomé, em determinado momento o manifestante de Deus era Abraão e em determinado momento o mensageiro de Deus foi Jesus Cristo. Hoje, Bahá’u’lláh veio trazer mensagens mais atuais pra humanidade. Deus está tão vivo que ele cuida das necessidades atuais da humanidade.

Os princípios da Fé Bahá’í são tão atuais que se Jesus Cristo tivesse vindo e trazido essas mensagens na época que ele viveu, a humanidade não estava pronta para recebê-los. Jesus Cristo veio trazer o amor, o sacrifício, a renúncia, como milhões de outros ensinamentos, e nós o amamos por isso. Mas Bahá’u’lláh já veio trazer a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, a livre busca da verdade . Daí um dos motivos também pelo qual a gente não tem padre, nem pastor, nem hierarquia, porque existe Deus, o manifestante de Deus, a humanidade e o Espírito Santo que liga eles. Não precisa de um ser humano, tanto como eu, como você, como qualquer homem ou mulher que interceda por isso, porque o Espírito Santo já intercede, porque Deus já está presente e ele vem trazer harmonia entre ciência e religião.

Em determinado momento, o manifestante de Deus era Maomé, em determinado momento o manifestante de Deus era Abraão e em determinado momento o mensageiro de Deus foi Jesus Cristo. Hoje, Bahá’u’lláh veio trazer mensagens mais atuais pra humanidade

A humanidade precisava de outra coisa na época de Jesus Cristo, os remédios que foram dosados. Maomé a mesma coisa. E Bahá’u’lláh veio trazer esse pensamento espiritual para o ser humano, é nessa revolução espiritual que nós Bahá’ís acreditamos.

RG: Você comentou que a Fé Bahá’í não tem hierarquia, não tem diferença entre culturas e expressões culturais. Como a Fé Bahá’í expressa esse papel social de homem e mulher?

DE: A verdade é que nós vivemos hoje em uma barreira invisível. As pessoas negam, mas ainda acontece. O preconceito é invisível, as pessoas não admitem. Agora, na Fé Bahá’i, a alma não tem sexo, não tem raça, não tem cor, não tem lugar geográfico, não tem distinção de nacionalidade. Por isso, uma das principais frases de Baha’u’llah é que a Terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos, eu diferenciar alguém por ser homem ou mulher.

Bahá’u’lláh, já preparando a humanidade para as coisas que o mundo tá vivendo – a gente tá vivendo uma revolução, né? -, falava que a mulher é a primeira educadora. Se, em uma casa, a família tivesse condição financeira de de educar só um filho, a mulher seria a prioridade. Por que? A mulher é a principal educadora. Bahá’u’lláh dizia que se você educar uma mulher de cada família, em uma descendência você cria o mundo para a paz. Pois ela vai ser a primeira educadora dos filhos, dos irmãos… de todo mundo. Assim você cria pais melhores também, cria uma outra descendência melhor. Esse assunto sobre educar uma mulher e ter uma próxima descendência educada para paz é tão grande que a Hillary Clinton, em uma conferência que ela fez na China em 96, citou o filho do fundador da Fé Bahá’í.

Então, assim como o mundo de uma certa forma está espiritualmente está ligado nos mesmos princípios, nas mesmas coisas que demandam de Deus. Deus sabe os planos do mundo e as necessidades do mundo. Por isso nós defendemos tanto a igualdade de oportunidade entre homens e mulheres. 

A mulher é a principal educadora. Bahá’u’lláh dizia que se você educar uma mulher de cada família, em uma descendência você cria o mundo para a paz. Pois ela vai ser a primeira educadora dos filhos, dos irmãos… de todo mundo.

Durante muito tempo a mulher foi colocada, lá em Eva, como a tentação e como a pecadora. Mas nós Bahá’ís sabemos que as coisas da Bíblia são simbólicas – eu não posso olhar algo e dizer que é simbólico e dizer que é literal quando eu quero, ou eu vejo como tudo simbólico ou como tudo literal, e nós pensamos que tudo é simbólico. E foi colocado por muitos bispos, por muitos escritores famosos a mulher como tentadora. Isso que deu a origem à caça às bruxas na Idade Média. Não existia caças aos bruxos, era caça às bruxas.

A ignorância era tanta que às vezes se uma mulher tivesse convulsão, e alguém ignorante falasse que ela era uma bruxa, ela era queimada na fogueira. Essa é uma das coisas -eu até me arrepio – que o manifestante de Deus veio para consertar. Quando você educa uma mulher e tira ela da promiscuidade que o mundo tenta colocá-la, a empodera, você vai ter excelentes executivas, excelentes funcionárias, excelentes mães, excelentes esposas, excelentes educadoras para a humanidade, pessoas que fazem bem. 

Eu não tô colocando a mulher como melhor que o homem, não é isso, mas em pé de igualdade. Lógico que dado as devidas proporções, cada um tem as suas habilidades. Eu sou uma mulher que tem muita habilidade igual de homem e nem por isso eu deixo de ser mulher, sabe? Ás vezes eu não tenho a sensibilidade que um homem tem, mas eu sou uma mulher, eu me sinto empoderada mesmo sendo uma mulher. 

RG: Como você acredita que a Fé Bahá’í se encaixa no seu dia a dia como mulher, na sua liberdade feminina. Você se sente mais empoderada com a Fé Bahai, ou não está de acordo com alguma coisa que é dito?

DE: Eu vou dar um testemunho muito pessoal: quando eu era evangélica, eu era de uma denominação que não existia pastora mulher. Eu não sei cantar, não sei fazer artes plásticas, não sei pintar e o meu sonho quando eu era da Igreja Evangélica era ser pastora. Não tinha pastora mulher e eu lembro que eu me perguntar o porquê de não poder ter pastora mulher. Mas eu não saí por conta disso não.

Eu sempre entendi muito a obediência de Deus. É como as muita coisa na vida da gente, não entendemos a mensagem hoje, daqui a um tempo ficamos mais velhas, vem a maturidade e você entende o que a vida quis te dizer. Então eu não me preocupei com isso. Quando eu conheci a Fé Bahá’í, não foi essa liberdade da mulher que me atraiu, porque eu já me sentia empoderada independente de qualquer coisa e não vai ser nenhum homem ou mulher que vai virar pra mim e falar: a Dany, isso você não pode. Mas eu me empoderei bem mais porque eu tive confirmações. 

Por exemplo, hoje nós fazemos atividades com crianças e eu não preciso ser uma pastora pra isso. Hoje a gente consegue fazer o bem para o próximo e eu não preciso ter um cargo pra isso. Saber que a mulher é a principal educadora me melhorou como pessoa, me fez cobrar de mim ser uma pessoa melhor e saber que eu tenho bases e competências individuais dadas por Deus para isso. Sabe, confirma, mas é algo que tem que ter dentro de você independente de qualquer coisa. Mas se também tiver algo de Deus que te confirme, por que não, né? 

Quando eu conheci a Fé Bahá’í, não foi essa liberdade da mulher que me atraiu, porque eu já me sentia empoderada independente de qualquer coisa e não vai ser nenhum homem ou mulher que vai virar pra mim e falar: a Dany, isso você não pode. Mas eu me empoderei bem mais porque eu tive confirmações. 

Quanto a mulher ter realmente esse lugar na religião, foi muito legal pra mim. Foi… Mas foi secundário, não foi a primeira coisa, porque o dia que eu vim eu nem sabia. É diferente, eu não conhecia a Fé Bahá’í, eu entrei pra conhecer. 

RG: E você sente que falta algum tipo de representatividade dentro da Fé Bahá’í em relação ao feminino, à mulher. Ou você acredita que a religião a acolhe bem?

DE: Acolhe, acolhe bem. Tanto que a maioria das minhas alunas são meninas. A mulher geralmente é mais sensível à espiritualidade, às vezes a mulher traz o marido, dificilmente o marido traz a esposa. Mas eu acho que a gente não encara como uma religião das mulheres. Mesmo assim, a maioria dos Bahá’ís aqui em Juiz de Fora são mulheres. 

RG: Independente da feminilidade ou não. Tem alguma coisa que é pregada aqui que você sente dificuldade de praticar no dia a dia?

DE: Eu acho duas coisas que é difícil praticar. É igual a escovar dente, você tem que ter a disciplina. Acho que a primeira é porque a Fé Bahá’í proíbe a fofoca. Então, diferente do que eu achei em alguns lugares que eu frequentei, não tem panela, a pessoa vai chegar aqui e vai ser acolhida por todo mundo. Mas isso também te poda, porque eu não posso chegar e falar mal de alguém, por exemplo. Por outro lado, isso une a comunidade completamente. Só que é difícil, a gente pensa que é fácil. Não é fácil. O pessoal fala: “Que legal, um lugar que não tem fofoca.”, mas acontecem situações no dia a dia que o ser humano, querendo ou não, falha. Isso é uma coisa difícil. 

A outra coisa difícil é que a gente acredita que a bênção divina não vem só no próximo mundo, ela começa neste. A Fé Bahá’í trabalha por um mundo melhor. Não acreditamos que Jesus vai voltar e o mundo vai acabar, acreditamos que Jesus já voltou. E a gente acredita que esse mundo pode se tornar melhor a partir do momento que melhoramos a humanidade. Alguns acreditam que o mundo tá piorando cada vez mais, mas não.

Cada vez mais existem pessoas pensando em se casar, em ter filhos, em adotar uma criança, em cuidar da saúde. O mundo tá se revolucionando, ainda que seja pouco. Por isso, trabalhamos por um mundo melhor. Damos aula de virtudes aos domingos em um bairro próximo aqui de Juiz de Fora. E você sair da sua casa, depois de trabalhar de segunda à sexta numa empresa, e educar crianças da periferia, é um trabalho difícil. Você precisa estar realmente envolvido e saber o quanto aquilo é importante pra você. O serviço à humanidade é também um princípio Bahá’í. 

O mundo tá se revolucionando, ainda que seja pouco. Por isso, trabalhamos por um mundo melhor.

RG: Falando um pouco sobre a Fé Bahá’í. Ela não foi muito bem aceita no Irã. Você poderia comentar um pouco sobre isso?

DE: Com os princípios tão modernos que a Fé Bahá’í tem, era muito óbvio disso não ser liberado no Irã e ser perseguido. Eu recebi na minha casa um bahá’í iraniano que mora hoje no Canadá. Ele contou que os seus pais foram presos no Irã e depois foram libertados, não foram mortos não. Mas ele me explicou algo que esclareceu bem a minha mente. A gente que mora no Brasil, lugar que tem completa liberdade religiosa. Tem duas coisas que nós não discutimos no Brasil: política e religião; porém lá no Irã é praticamente a mesma coisa, é como ir contra o governo não ter a religião [oficial]. Ele comentou comigo que foram feitos acordos tipo: os Bahais em sua minoria, sendo a minoria religiosa, fariam reuniões de oração em sua casa, podiam dar aulas pra criança, só que sem alarmar. Porque, assim, hoje eu vou no Dom Bosco e posso convidar qualquer criança para uma aula Bahá’í. Agora lá não, lá eu teria que fazer uma aula Bahá’í com os meus filhos, no máximo filho de uma amiga minha que concordasse em fazer, sem alarde. Foram feitos acordos assim.

Eu tenho uma amiga que é iraniana e veio morar no Brasil. Lá [no Irã] ela foi presa também por estar dando aulas de virtudes pra crianças. Ela chama Negar, é uma moça muito alegre, e hoje é professora de inglês aqui no Brasil, mora em Campinas. Ela falou que ela foi presa porque descobriram que ela tava dando aula para um número grande de crianças. Aquela coisa, você não pode deixar ser pego, tem vezes que eles fazem vista grossa. E ela foi presa simplesmente por ensinar a frase “o conhecimento são como asas para a vida do homem, é uma escada que através dela pode ser livre”. Se ensinar isso pra criança é crime, simplesmente dá pra saber o tamanho da perseguição política-religiosa de lá.

Eu tenho uma amiga que é iraniana e veio morar no Brasil. Lá [no Irã] ela foi presa também por estar dando aulas de virtudes pra crianças.

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