Relatos de Amamentação: Caroline e a gravidez “planejada”

Caroline Silva, ou Carol, tinha 31 anos na época da entrevista (julho/2020). Ela é engenheira mecatrônica e trabalha com consultoria tributária. Teve a Maria Eduarda, ou Duda, sua única filha, com 30 anos e diz que sua gravidez foi planejada. A história que nos conta é cheia de números, datas, horários. Carol tenta falar tudo de maneira racional e até enquanto estava em trabalho de parto, lembra que contava os minutos entre as contrações. Mesmo com tanto controle, as coisas não saíram exatamente como o planejado.

Conversei com a Caroline por vídeo-chamada. Ela tinha acabado de colocar a pequena Maria Eduarda para dormir, “a menina é um relógio”, Carol afirma rindo. Como um relógio, Duda nasceu exatamente no dia apontado por seu médico, com apenas algumas horas adiantadas.

Pré-natal

“O meu pré-natal fiz todinho em Mogi das Cruzes (SP) […] Fiz pelo particular, com um médico que já era meu ginecologista, era obstetra e ele me acompanhou até o final da gravidez.”, diz. Segundo Caroline, o parto foi feito com mesmo médico. Perto da 35ª semana, ela começou a ser acompanhada por mais uma médica, revezando as semanas entres os dois médicos. O parto foi pago pois o convênio não cobria tudo.

“Com o médico eu fui uma mãe bem de boa, não fui uma mãe muito encanada. Meu pré-natal foi muito tranquilo. Até meu médico falou como, fisicamente, eu estava muito bem. Eu me preparei para a gravidez, pensando que estava com os exames todos em dia, então teoricamente estava tudo bem, meu pré-natal foi bem tranquilo. Só tive uma complicação, foi quando estava com 8 meses, tive uma crise renal perto do meu aniversário, expeli uma pedra então comecei a sentir dor. No finalzinho me deu hemorroida. Mas foram as únicas coisas que vieram assim, antes do parto. O pré-natal foi bem tranquilo com o médico em termos de informação, fui bem assegurada.”, conta.

O parto

Caroline fez todo o pré-natal pensando em fazer parto normal, mas segundo ela, sua filha “virou mas não encaixou”. Assim, a cesárea foi agenda com o médico para o dia 14 de setembro às 20h. Se a bolsa estourasse antes e eles precisassem induzir o parto, fariam o parto normal. Carol me fala que ficou chateada com a notícia pois queria fazer o normal, sabia que a recuperação é mais tranquila, “bem melhor”.

Na madrugada do dia 14, Caroline sentiu vontade de ir ao banheiro e percebeu que saia muita água. Ela foi conversar com o pai de Maria Eduarda, contando que acreditava que a bolsa havia estourado. Carol não se desesperou pois acreditava que poderia esperar até 24h após a bolsa estourar. Como o parto já estava marcado para às 20h daquele dia, voltou a dormir. Ligaria para o médico se acontecesse alguma coisa mais grave.

Pouco tempo depois, sentiu uma dor parecida com uma cólica menstrual, ela achou estranho e ligou para o médico. Ele afirma que Carol estava em trabalho de parto e precisava ir para o hospital imediatamente. Mesmo assim, ela ficou tranquila, não sentiu mais dor e se arrumou para sair com calma. Foi apenas no meio do banho que sentiu a primeira contração e então começou a se apressar.

“Senti outra contração indo pro carro, aí quando entrei, lembro que comentei que a contração pra ficar preocupante tem que vir em intervalos de 10 minutos, olhei para o relógio, aquela pessoa que controla tudo, e vi que a minha contração estava de 7 em 7 minutos. Saí de casa umas 4h, cheguei em São Paulo umas 5h. Chegando no hospital, não conseguia mais descer do carro. Comecei a sentir muita dor. Era uma sexta-feira. Ligaram para o médico e, quando cheguei, eu não tinha dilatação, estava com um dedo e meio de dilatação só. Nessa briga, me levaram para o parto de emergência. Comecei a passar muito mal, não falava mais, sentia muita dor, achei que ía morrer, tive essa sensação real.”, diz.

Nesse momento, os médicos interpretaram as dores de Caroline como dores do parto. Quando o seu médico chegou, ela conta que ele a abraçou e pediu para darem anestesia. Carol sentia uma dor terrível, não conseguia falar e afirma que na hora estava pálida e só voltou à consciência após a anestesia. “Depois que tomei a anestesia, mudou, porque eu fiquei medicada no hospital. Mas, antes disso, esse período das 4h30 da manhã até às 8h da manhã, foi assim… não falava, não brincava, não tinha um segundo de dar risada, só bufava. Por isso que se me perguntam: ‘foi normal?’, digo que não foi normal, porque não foi nem uma cesárea nem normal. Eu tive as contrações do normal, mas a Duda não encaixou pra sair ali, então, o parto normal não tive.” ela expõe.

Sua filha nasceu 8h23 da manhã, era pra nascer às 20h. “Ela nasceu no dia que ele agendou, mas na hora que ela quis.” No vídeo de parto de Maria Eduarda, a médica comenta que tem um bebê olhando pra ela, ou seja, Duda estava virada para cima. Caroline fala que se estivesse na rede pública, não sabe o que poderia acontecer, acredita que colapsaria se forçassem o parto normal pois a dor que sentia era muito forte, a maior que sentiu em sua vida.

No domingo, Caroline expeliu uma pedra ao ir ao banheiro. Foi então que entendeu o motivo da dor imensa que sentiu: no mesmo momento do parto, ela também passava por uma crise renal. Carol diz que ficou traumatizada, e precisou se recuperar da crise renal durante todo o primeiro mês de sua filha.

Amamentação

“Amamentei até os seis meses, exclusivo. Você já fez entrevistas com outras mães? Elas romantizam a amamentação?” Carol me perguntou após eu questioná-la sobre a amamentação. “É porque assim… A Duda nasceu na sexta. Nasceu e já pegou na hora. Na saída do hospital eles já me colocaram com ela pra começar a amamentar. Ela já pegou ali e lembro que na sexta passei a madrugada amamentando, até uma hora que não aguentei mais e dei chupeta porque ela só ficava fazendo o meu bico de chupeta. Eu tinha bico, não tinha problema em relação a isso. Quando tive alta no domingo, comecei a sentir meu peito rachando.”

“E a cena foi a seguinte: cheguei na casa da minha mãe, sentei na cama do meu irmão, peguei a Duda, estava com dor no peito e resolvi usar aquele bico de silicone. Tava meu pai, o Pedro (irmão caçula de Caroline), minha mãe e o pai da Duda, todo mundo me esperando amamentar. Na hora que coloquei o bico de silicone e pus a Duda, jorrou sangue. Arrancaram ela de mim, comecei a chorar, e o meu peito estava latejando. Compraram fórmula nesse dia pra dar pra ela. E aí eu comecei a intercalar um peito pro outro, foi quando comecei a criar a rotina da Duda. Eu dava mama de duas em duas horas pra ver se conseguia cicatrizar o peito, porque meu peito rachou muito, e cortava. Fiquei um mês com o peito rachado. Tudo o que falavam pra eu fazer eu fazia. Tudo, tudo. “

“O que ajudou: banho de sol depois da amamentação, não deixar o lugar muito úmido e intercalar. Quando não tinha sol, lâmpada incandescente, porque ela faz esse papel de esquentar, e aquelas conchas, elas ajudam muito até pra fazer o bico, mas se ficar muito úmido, não deixa cicatrizar o peito, então tem que tomar cuidado. Ah! E não usar sutiã.” Caroline conta que após mais ou menos quarenta dias de amamentação, o peito começou a melhorar e já amamentava sem sentir dor.

Perguntei à Caroline porque manteve a decisão de amamentar mesmo com a dor. Ela fala que nem o médico sabe como fez, ele afirmou para Carol que muitas mães já teriam desistido na situação em que estava. Ela acredita que continuou pois sabia que era o melhor para a sua filha e pra ela. Durante a amamentação Carol diz ter percebido as cólicas diminuindo e “as coisas voltando pro lugar”, conta que via que era melhor pra ela também. Ela também tinha esperança tudo ficaria mais tranquilo com o passar do tempo.

“Foi isso, de colocar prazo, depois de tanto dizerem que melhora… E é um relógio, um mês começa a melhorar, no terceiro mês a criança começa a dormir mais e o ciclo vai melhorando, então colocar isso na cabeça ajudou muito. Mas eu não sei, porque eu acho que isso é coisa de mãe, não tenho uma resposta lógica, não é lógico. Você está sofrendo como uma louca e vai continuar ali? É!”

Ao falar sobre algumas situações que passou durante a amamentação, Caroline conta que um dia, quando estava tomando banho de sol após a amamentação, o peito esquentou e começou a sair leite. Ela achou engraçado e foi contar a história para outra pessoa. Em vez de rir, a pessoa perguntou preocupada se o leite havia caído no ralo e se foi levado pela água corrente. Carol não entendeu a pergunta. Então a pessoa explicou: “Se vazar leite e não for em água corrente o peito seca.” Caroline afirma que acreditou por estar fragilizada no momento. “Ouvindo hoje, eu falo assim, mano, que idiotice! Só que naquele dia, no momento em que eu estava e na fragilidade que eu estava, aquilo me fez ficar tensa. Fiquei pensando, será que caiu no ralo? Comecei a jogar água no lugar pra ver se corria.”, diz.

Caroline parou de amamentar após os 6 meses. Ela voltou a trabalhar em São Paulo e morava em Mogi das Cruzes. Maria Eduarda começou a ir para a creche e usar a mamadeira. Carol saía para o trabalho 5 da manhã e chegava muito cansada em casa. Segundo ela, seu o peito inchava e chegou a sentir dor por isso, fala que não usava a bombinha pois não gostava e sentia que demorava muito para tirar o leite. Conversou com a pediatra e começou a dar fórmula, também faz a introdução alimentar após os seis meses, até então ela apenas amamentava a Duda. “Também precisava beber, tomar um porre porque tinha separado fazia dois meses.” conta rindo.

Rede de apoio

Perguntei à Caroline como funcionou a sua rede de apoio. Ela enfrentou o divórcio logo após o nascimento de sua filha. Carol afirma que o pai de Maria Eduarda voltou a trabalhar logo após duas semanas e quase não dormia na casa de sua mãe, onde ela ficou no primeiro mês. Quando voltou para casa, diz que ele ajudava bem pouco e que ficava bastante tempo sozinha com Duda. Após o divórcio, fala que ficou muito tempo se virando sozinha, Carol tinha algumas amigas que a ajudavam, mas a maior parte das tarefas fazia por conta própria.

“Quem me ajudou muito foi a minha mãe, no primeiro mês eu fiquei na minha mãe e o Vinícius (irmão de Caroline), desde sempre o meu irmão me ajudou muito. O pai dela no começo… acho que nem no começo nem nunca eu posso falar que me ajudou horrores em relação a ela. Sempre quem me ajudou muito foi minha mãe.”

Quando voltou a trabalhar, seu irmão ficava algumas vezes em sua casa. Ao se mudar para Porto Alegre (RS), por conta do trabalho, Vinícius foi morar com Carol e a ajuda em praticamente tudo, “ele assume a responsabilidade assim como eu.” conta.

Ser mãe: antes e depois

Sobre suas perspectivas do que era ser mãe antes de engravidar, Caroline afirma que não imaginava que a amamentação seria tão difícil, que seria tão dolorido, pensava que seria um pouco mais amigável. Para ela, o pós-parto e a amamentação foram as partes mais difíceis. Carol imaginava que esse momento seria tranquilo. “A gravidez em si, os nove meses de gestação, eu levei de boa. Tive crise renal, mas isso eu poderia ter [em outro momento] e tive hemorroida bem no finalzinho. Quando eu estava com seis meses, fui pra Nova York, minhas amigas desacreditavam. Eu passava a noite dançando, saia com as meninas, só não bebia, mas fazia tudo o que queria fazer. Andava quinze quilômetros passeando.”

“Então, a gravidez eu carreguei muito bem. Quando a Duda nasceu eu não imaginava que era tão difícil o primeiro mês, de enxergar que ‘morreu’ a Carol. Porque realmente você enterra uma pessoa e nasce outra, fazer essa transição é muito difícil, lidar com o corpo em transição é muito difícil, olhar pra criança e não saber o que fazer, não saber se está fazendo certo. Acho que até hoje minha mãe deve pensar se está fazendo certo ou não.”

Diz que, depois do terceiro mês, as coisas melhoraram e a única questão é o cansaço. “Filho é tão gostoso quanto cansativo”, ela fala rindo.

Caroline brinca que é quase uma coach de mães agora. Atualmente, aconselha a suas amigas que também tem filhos a não colocarem na maternidade mais peso do que já tem, a não buscarem ser a mãe perfeita. “Tem o grupo da empresa, tem o grupo das mães lá do condomínio de Mogi, tem um grupo de amigas mães, então, vários grupos.”

“A gente se preocupa muito com o pré-natal, mas o pós-natal é extremamente importante porque a gente tem o pós-parto, tem a questão da depressão pós-parto… E eu falo que tive estrutura, você viu, meu pré-natal foi pago, meu médico estava ali do meu lado, eu estava em um hospital super bom, de referência em São Paulo. Na rede pública a gente não tem isso, né? Esse cuidado com o pós-parto.”

“Eu falo que o meu caso foi totalmente planejado e no meio do caminho aconteceu um percalço, eu separei. Não culpo a criança, não tenho essa de ‘deixei de fazer alguma coisa por causa da criança’, não tenho porque fiz tudo o que tinha que fazer antes da Duda e depois o que eu quis fazer eu fiz com ela. E meus pais são super presentes na minha vida em relação a ela, até brinco que eu tenho uma semana de férias por ano da Duda, tem mãe que acha isso um absurdo, mas eu acho super válido. “

“A gente precisa dar uma respirada. Ano passado eu fui pro Rock’n Rio e esse ano eu fui pra Salvador, devia ter aproveitado mais Salvador se soubesse que ia ter a pandemia. (risos) Mas é esse o negócio, de não me frustrar e não frustrar a Duda porque foi planejado. Separei? Separei, já acabou, já era! Tem que levar bem tranquilo, bem leve.”, conta.

Conversa com a especialista

Quais são as as dúvidas mais comuns das mães sobre a amamentação, ainda durante o pré-natal?

A Drª Tiacuã Sanção Fazendeiro é médica pediatra e consultora em amamentação.

“As mães costumam não ter dúvida durante o pré-natal, sabia? Durante o pré-natal, elas estão muito focadas na questão do parto, do trabalho de parto e como vai ser isso. Existe um imaginário romantizado de que amamentar é natural, é automático, de que o bebê vai pegar o peito. O que elas costumam perguntar é sobre o preparo das mamas pra amamentar, mas não costumam ter dúvidas sobre a amamentação. Isso é um grande desafio, porque a amamentação não é automática, não é instintiva. Apesar de sermos animais mamíferos, somos atravessados pela cultura, pela sociedade, então não é natural, não é automático. Por isso, em geral, não se costuma conversar muito sobre amamentação durante o pré-natal.”