Relatos de Amamentação: Thaiane e o NHS

A professora de inglês Thaiane Nones, 28 anos, é de São José dos Campos (SP) e atualmente mora na Inglaterra. Thaia engravidou com 25 anos da Isadora, hoje com um ano. Nessa época, tinha acabado de se mudar para Birmingham, na Inglaterra, após o seu marido receber uma oferta de trabalho por lá. Todo o pré-natal e o parto foram feitos pelo serviço público britânico (NHS). Ao falar sobre ter usado o NHS, ela aponta que na Inglaterra o serviço particular não faz o pré-natal, o parto é muito caro e o convênio não cobre. Nossa conversa sobre toda a sua experiência foi por uma vídeo chamada feita da sua casa, em Birmingham, enquanto a pequena Isadora assiste TV e dança no fundo da câmera.

O pré-natal

“O pré-natal aqui é feito por enfermeiras obstetras, não por médicos. No caso, elas são mais preparadas que os médicos. Elas fazem o pré-natal e o parto. Médico é só se tiver algum tipo de complicação. Aqui elas são chamadas de midwives, seria como ‘parteira’ aí no Brasil.” Assim, Thaiane começa contando sua experiência. Todo o seu pré-natal e o parto foram feitos através do NHS, o serviço público de saúde do Reino Unido.

Thaia achou a experiência assustadora no início. Além de precisar se adaptar ao país onde tinha acabado de chegar, também teve lidar com o fato de estar grávida. Foi necessário aprender o que precisava fazer e perguntar, tudo na língua estrangeira. “Quando fui fazer o exame de gravidez, eu não tinha nem o cadastro, mas no exato segundo que falei que achava que estava grávida, eles já me deram um potinho pra fazer xixi e marcaram a consulta para fazer o teste de gravidez para o dia seguinte. Eu não tinha documento, eu ainda não tinha visto nem nada. Mas eles falam: primeiro eu cuido de você depois vemos o que tem que fazer. Eles são assim. Então no dia seguinte eu fiz o exame de gravidez e tá aqui a prova de que estava grávida”, ela aponta para a Isadora que está dançando na frente da TV nesse momento. 

A primeira consulta foi marcada para a 10ª semana de gestação. Mas, sem saber sobre o risco, Thaiane teve um pequeno sangramento ao tentar fazer a unha do pé uma semana depois de receber o resultado do exame. Procurou o serviço médico e lá diz não ter feito nenhum exame invasivo pelo risco de aborto. Estava tudo bem e recebeu a instrução de não se abaixar e não fazer mais a unha do pé sozinha. Por conta do ocorrido, sua consulta com a midwife foi adiantada para a 8ª semana.

“Eu sei que nas primeiras consultas não tem o ultrassom, só tem dois ultrassons a gravidez inteira, um com 12 semanas e o outro com 18 ou 16 semanas, não me lembro.” Thaia ainda conta: “Você escuta o coração só com 24 semanas. Mesmo no ultrassom eles não mostram o barulho, só te mostram a máquina do hospital pra ver os batimentos. Faz muitos exames de sangue, pra tudo. E as consultas são pra saber se a gente não tá passando mal e em toda consulta precisa fazer exame de urina.” Em um dos exames foi percebido uma deficiência de ferro que ela conseguiu controlar com a alimentação. “Comi muito feijão e brócolis” conta rindo.

Amamentação

Thaiane diz que onde mora há cursos para gestantes sobre amamentação e cuidados com o bebê, mas não fez. Ela ligou para marcar, ficaram de retornar a ligação e não entraram mais em contato. Tudo o que aprendeu sobre a amamentação foi pesquisando por conta própria, “Eu saí caçando informação porque tinha tempo livre pra isso.” Uma das ferramentas de informação utilizada foi o aplicativo Baby Center, que ajuda a gestante a acompanhar as semanas de gestação e orienta a mãe com dicas e informações.

Quando questionada sobre a sua decisão de amamentar, Thaia responde: “Coisas que eu já tinha na cabeça desde antes de ficar grávida: eu queria que meu parto fosse normal, nunca quis cesárea, acho desnecessário ficar com aquele corte na minha barriga, não gosto, se tem um jeito de fazer normal eu ía fazer normal. E eu sempre quis amamentar, então me preparei durante toda a gravidez pra amamentar. Eu tinha aquelas bombinhas de tirar leite, uma midwife falou que eu poderia estimular a produção de leite, era só eu colocar aquela bombinha antes de ter a Isadora. Perto das 30 semanas eu já estava estimulando. Não saía nada no começo, mas depois de um tempo começou a sair o colostro. Eu tinha bastante leite.”

A amamentação foi por livre demanda, ela comentou que já sabia que bebês acordam durante a noite para mamar. Isadora acordava a cada duas horas, mas não se incomodou com isso. “Se ela tem que mamar, tem que mamar… quando ela não precisar mais acordar de duas em duas horas pra mamar, ela vai parar. Eu não a acordava, mesmo de noite, as midwives me orientaram que se ela estiver com fome, ela vai acordar.” 

Sobre o tempo que amamentou: “Meu leite secou com três meses. Foi extremamente esquisito. Eu tinha muito, muito leite. Do nada meu peito começou a doer, mas não doía no peito, doía mais pra cima. A Isadora tentava puxar, parecia que ela tava puxando o que não tinha. Eu fiquei um mês falando para o meu marido que tava esquisito, que estava doendo. Ele me perguntou se ela estava pegando errado, mas não era isso. Não doía o bico, doía o peito inteiro. Avisei para o meu marido que estava com menos leite, ele falou que era coisa da minha cabeça. Até que um dia a Isadora foi mamar, puxou, puxou, puxou e não saiu nada. Então fui pra fórmula, não ía ficar esperando a menina ficar morrendo de fome para começar a dar fórmula pra ela, não acho certo. Foi extremamente frustrante, mas era o melhor pra ela.”

Ao procurar um médico, só foi questionada sobre a saúde a sua saúde e a da criança, sem julgamentos em relação a começar ter alimentado a filha com a fórmula. Os comentários vieram de outras pessoas: “ Ouvi vários comentários das pessoas sobre dar mamadeira. Todo mundo quer falar coisa que não sabe, mas eu já era bocuda antes de ter a Isadora, depois de ter a Isadora fiquei pior. Uma pessoa falou que era só eu cheirar ocitocina com sei lá o que e o leite voltava. Onde raios eu vou achar ocitocina? Eles têm no hospital porque eles precisam…”

Ao introduzir a alimentação sólida, Thaiane não sentiu dificuldade, diz que Isadora come de tudo. “Eu não tento ficar enfiando comida se ela não tá afim. Eu não vou ficar enfiando comida goela a baixo. Mas ela come bem, come fruta, adora morango!”

Thaia se considera uma mãe tranquila, “Não sei se é porque eu não fico encrencando, quando ela quis começar a andar eu não fiquei forçando, nem fiquei preocupada. Acho que tem tempo pra tudo, sabe?” 

Conversa com a especialista

Quais são as vantagens da amamentação?

A Drª Tiacuã Sanção Fazendeiro é médica pediatra e consultora em amamentação.

“São praticamente infinitas as vantagens. Dos estudos que temos hoje, protege o bebê de várias infecções como de ouvido e diarreia. Previne alergias e doenças crônicas futuras como diabetes, obesidade, câncer, protege de alguns tipos de câncer na infância. Nas primeiras hora de vida protege de hipotermia e hipoglicemia. Para a mãe é um alimento que já vem pronto, na temperatura certa. Protege a mãe de câncer de útero e de câncer de mama, de doenças cardiovasculares – infarto, hipertensão. E não produz lixo, seja pela produção de pasto ou pela lata da fórmula. É o alimento mais completo e é um alimento vivo, se adapta às necessidades do bebê. São muitas vantagens.”